Mostrando postagens com marcador Medicina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Medicina. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mary Poppins Já Dizia - Quarta Científica #33



Poder direcionar os medicamentos de uma quimioterapia para atacar células cancerosas - e somente as cancerosas - tem sido um objetivo dos pesquisadores médicos há muito tempo. Será, então, que a recente descoberta  de uma proteína da malária que parece atacar um tumor e não as células saudáveis um avanço significativo na corrida armamentista contra o câncer.

A ideia de atacar células cancerosas com proteínas carregando uma dose de medicamentos tóxicos com certeza não é de hoje. Na verdade, vários desses "complexos farmaco-proteicos" já foram aprovados pela Administração de Alimentos e Drogas (FDA) dos Estados Unidos desde 2011. Talvez a diferença mais importante entre essa última descoberta e os complexos já disponíveis seja o seu alvo: uma molécula de açúcar complexa encontrada principalmente em células cancerosas e na placenta de uma mulher grávida, e que é quase inexistente em células normais.


O Útil Parasita da Malária


A origem da proteína que se liga a esses açúcares, o parasita da malária, no caso, talvez gere repercussão, mas a sua origem é quase que inteiramente irrelevante. O que vai definir seu futuro como um mecanismo de administração de medicamentos é a habilidade da proteína de distinguir entre células cancerosas e saudáveis.

O objetivo supremo da pesquisa farmacológica contra o câncer sempre foi a capacidade de discernir tecido saudável de tumores. Essa capacidade em um medicamento minimizaria os tóxicos efeitos colaterais associados à quimioterapia tradicional, e permitiria o uso de dosagens mais altas para destruir o tumor mais rapidamente.

As proteínas podem ser usadas para mirar em um alvo na superfície das células cancerosas e jogar uma bomba de medicamento dentro delas. Isso requer um alvo na superfície das células dos tumores que não esteja presente em tecido normal. Os cientistas vêm procurando por esses alvos já há muitos anos, e vários tratamentos supostamente precisos foram desenvolvidos, com vários níveis de sucesso.

A noção de que um desses alvos possa ser encontrado em placentas, como ocorre com essa última descoberta, pode parecer ser meio bizarra a princípio. No entanto, os pesquisadores já há muitos anos acreditam que os segredos relacionados ao início e a progressão do câncer podem estar na capacidade do feto de se desenvolver a partir de um aglomerado de células pré-embrionárias e nas mudanças que ocorrem na placenta durante o desenvolvimento do bebê no útero.

A compreensão de alguns desses processos naturais de desenvolvimento pode levar a uma descoberta revolucionária na pesquisa do câncer, como a que foi relatada por esses pesquisadores. Neste caso, descobriu-se que a proteína encontrada na superfície do parasita da malária é capaz de se ligar a alvos na placenta. Isso permite que o parasita se associe com a placenta, o que pode gerar uma complicação comum da infecção por malária na gravidez. Mas a descoberta seguinte, a de que ela também se liga a alvos de açúcar específicos na superfície das células cancerosas, foi aproveitada pelos cientistas.

Açúcar Carrega Informações Importantes


Apesar de serem amplamente ignorados pela comunidade científica, ao longo de muitos anos, os açúcares complexos estão ganhando notoriedade rapidamente como algumas das moléculas mais importantes na superfície das células normais e cancerosas. De várias formas, a informação carregada pelos açúcares é muito mais complexa do que a presente no seu DNA. E talvez a descoberta mais importante nessa nova pesquisa seja o próprio alvo.

Tentativas anteriores de usar açúcares complexos como alvos para tratamento de cânceres mostraram resultados promissores, mas a maioria deles foram usados na pesquisa de vacinas contra o câncer. Portanto, a identificação de proteínas que podem buscar açúcares exclusivos às superfícies de células cancerosas pode ser um grande avanço na nossa capacidade de mirar tumores com complexos farmaco-proteicos.

Será, então, que esse novo sistema de administração de fármacos "com mira de proteína" vai realmente administrar medicamentos diretamente nos tumores humanos e minimizar o risco de danos ao tecido saudável do paciente? Os resultados de um experimento com camundongos sugerem que sim. Infelizmente, experimentos com animais nem sempre se tornam tratamentos eficazes para pacientes humanos, e nós devemos ser cuidadosos ao interpretar esse tipo de descoberta. O número de estruturas de açúcar diferentes na superfície de células normais e cancerosas também é enorme, e pequenas diferenças podem ser a diferença entre o sucesso e o fracasso como um alvo específico a cânceres. Uma mudança relativamente insignificante na estrutura dos açúcares entre as cobaias não-humanas e os pacientes poderia facilmente fazer com que o complexo farmaco-proteico atingisse células normais além das cancerosas, o que causaria danos significativos aos pacientes.

Apesar dos resultados desse estudo serem empolgantes, ainda vai demorar muito para podermos determinar toda a sua influência no campo do tratamento localizado de câncer. Os cientistas e os pacientes certamente vão observar com grande interesse conforme esses complexos avancem para testes clínicos.

Fonte: IFLScience

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Dr. House Pode Estar Com o Emprego em Risco - Quarta Científica #30



Um diagnóstico melhor leva a tratamentos melhores - isso todo mundo sabe. Só que é mais fácil falar do que fazer, como sempre. Às vezes não é possível seguir essa lógica, quando, por exemplo, os exames que detectam doenças ou infecções levam tempo para dar resultado, ou são imprecisos ou insensíveis. Por exemplo, os vírus: existem inúmeros deles capazes de causar doenças, muitos causando os mesmos sintomas ou, pior ainda, sintoma nenhum. Sendo assim, detectá-los pode ser um pesadelo. Às vezes é necessária uma bateria de testes árdua e custosa para desvendar um caso.

Mas e se houvesse um teste universal, pau-para-toda-obra que pudesse detectar qualquer vírus conhecido em uma amostra, eliminando a necessidade desse trabalho de detetive tão demorado? Pode parecer um pouco (ou muito) fora do nosso escopo, mas um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington pode ter realizado esse feito impressionante, que era há muito aguardado.

"Com esse exame, você não precisa saber pelo quê está procurado", disse o autor-sênior Gregory Storch. "Ele lança uma rede grande capaz de detectar, com eficiência, vírus presentes em concentrações muito baixas. Acreditamos que o exame será especialmente útil em situações onde um diagnóstico ainda não seja claro, mesmo depois dos testes padrão, ou em situações onde a causa de uma epidemia seja desconhecida".

Pela descrição do trabalho publicada na revista Genome Research, os resultados são impressionantes. Para fazer seu "ViroCap", os pesquisadores começaram criando um painel amplo de sequências buscadas pelo teste, que foram geradas usando trechos diferenciados de DNA e RNA encontrados em vírus de 34 famílias diferentes de infectantes de humanos e animais. O resultado foram milhões de sequências de ácidos nucleicos que podem ser usados para capturar cepas compatíveis em uma amostra, caso elas estejam presentes.

E o amplo espectro do teste não é sua única característica impressionante: ele é tão sensível que pode detectar até pequenas variações nas sequências, o que permite identificar um novo subtipo do vírus - algo que não é possível em muitos testes tradicionais. Muito embora isso não vá mudar a forma de tratamento de um paciente, pode ajudar no monitoramento da evolução de doenças.

Para demonstrar as capacidades do teste, os pesquisadores colheram amostras de um pequeno grupo de pacientes do Hospital Pediátrico de St. Louis e compararam os resultados com os obtidos dos testes normais. O sequenciamento tradicional conseguiu detectar vírus na maioria das crianças, mas o ViroCap também encontrou vírus bem comuns que não haviam sido detectados. Entre esses estavam um vírus da gripe e o causador da catapora. Em um segundo exame feito em um grupo diferente de crianças, todas com febre, o novo método detectou sete vírus além dos 11 que o método tradicional foi capaz de detectar.

No papel, está tudo lindo e maravilhoso, mas, claro, o exame ainda não está pronto para ser usado no posto de saúde da esquina. Mais testes são necessários para verificar a sua precisão em grupos maiores de pessoas, já que, até agora, só um número limitado de pacientes foram testados. Mas, quando chegar a hora, a equipe planeja tornar o exame acessível para todos, o que seria muito bem-vindo em meio a grandes epidemias, como a do Ebola. Além disso, a equipe espera, em algum momento, conseguir alterá-lo para detectar material genético de outros tipos de micróbios, como bactérias. Se isso puder ser feito, teríamos em mãos um método extremamente útil capaz de mudar a medicina diagnóstica para melhor.

Fonte: IFLScience

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

SSD É Para Os Fracos - Tecno-Segunda #30


Nós inevitavelmente imaginamos aparelhos eletrônicos feitos de chips de silício, com os quais os computadores armazenam e processam informações na forma de dígitos binários (zeros e uns) representados por pequenas correntes elétricas. Mas não precisa ser assim: entre as alternativas para o silício estão os meios de armazenagem orgânicos, como o DNA.

A computação por DNA foi demonstrada pela primeira vez em 1994 por Leonard Adleman, que transcreveu e resolveu o "problema do caixeiro viajante", um problema matemático onde se precisa encontrar a rota mais eficiente para um caixeiro visitar várias cidades hipoteticas, somente usando DNA.

O ácido desoxirribonucleico é capaz de armazenar enormes quantidades de informação transcrita em sequências de moléculas chamadas nucleotídeos: adenina (A), timina (T), guanina (G) e citosina (C). A complexidade e a enorme variedade dos códigos genéticos de espécies diferentes demonstram a quantidade de informação que pode ser armazenada em DNA através das CGAT, e é possível usar essa capacidade para a computação. Moléculas de DNA podem ser usadas para processar informação, usando um processo de fusão entre pares de DNA chamado de hibridização. Esse processo pega cadeias únicas de DNA e as transforma em cadeias diferentes.

Desde o experimento de Adleman, muitos "circuitos" baseados em DNA foram propostos, implementando métodos computacionais como lógica Booleana, fórmulas aritméticas e computação por rede neural. Batizado de programação molecular, esse método aplica conceitos e desenhos tradicionais da computação à escala nanométrica ideal para se lidar com o DNA.


Nesse sentido, a "programação" acaba sendo bioquímica. Os "programas" criados, na verdade, são métodos de seleção de moléculas que interagem de um modo que gere o resultado desejado, através do processo de auto-montagem do DNA, no qual grupos desorganizados de moléculas interagem espontaneamente para formar a cadeia de DNA desejada.

"Robôs" de DNA


O DNA também pode ser usado para controlar movimento, o que gera a possibilidade de aparelhos nano-mecânicos baseados nele. Isso foi feito pela primeira vez por Bernard Yurke e sua equipe no ano 2000. Eles conseguiram criar um par de pinças de cadeias de DNA que conseguiam agarrar e soltar. Experimentos posteriores, como o feito pela equipe de Shelley Wickham em 2011 e no laboratório de Andrey Turberfield em Oxford, demonstraram máquinas móveis nano-moleculares feitas completamente de DNA e que podiam viajar por caminhos pré-definidos.

Através disso, poderíamos ter um nanorrobô de DNA seguindo determinadas trilhas, tomando decisões, e sinalizando assim que chegasse ao fim dela, o que indicaria que a computação foi finalizada. Do mesmo jeito que circuitos eletrônicos são impressos em placas, moléculas de DNA poderiam ser usadas para imprimir trilhas similares organizadas em árvores de decisão lógica em uma placa de DNA, com enzimas controlando a tomada de decisões ao longo da árvore, fazendo o robô tomar um caminho ou outro.

Andadores de DNA também podem carregar cargas moleculares, portanto poderiam ser usados para administrar medicamentos dentro do corpo.

Por Que Computação Por DNA?


Algumas das várias características interessantes das moléculas de DNA são o seu tamanho (2 nanômetros de espessura), programabilidade e alta capacidade de armazenagem - muito maior que a das suas equivalentes de silício. O DNA também é versátil, barato e fácil de ser sintetizado, fora que a computação com DNA requer muito menos energia que os processadores elétricos de silício.

Seu ponto negativo é a velocidade: atualmente, são necessárias várias horas para computar a raiz quadrada de um número de quatro algarismos, coisa que um computador tradicional faz em um centésimo de segundo. Outra desvantagem é que circuitos de DNA são descartáveis, e precisam ser recriados para refazer a mesma computação.

O que talvez seja a maior vantagem do DNA sobre os circuitos eletrônicos é que ele pode interagir com seu ambiente bioquímico. A computação com moléculas envolve reconhecer a presença ou ausência de certas moléculas, portanto uma aplicação lógica da computação por DNA é levar a programabilidade para o reino dos biosensores ambientais, ou ao da administração de medicamentos e tratamentos dentro de organismos vivos.



Programas de DNA já começaram a ser usados no campo da medicina, como em diagnósticos de tuberculose. Outro uso proposto é o de um "programa" nano-biológico, idealizado por Ehud Shapiro do Instituto Weizmann de Ciências em Israel, chamado de "médico na célula", feito para destruir moléculas cancerosas. Outros programas com aplicação médica miram nos linfócitos (um tipo de célula branca), que são definidos pela presença ou ausência de certos marcadores celulares, portanto podem ser detectadas naturalmente com a lógica Booleana de verdadeiro ou falto. Entretanto, mais esforços serão necessários antes de podermos injetar medicamentos inteligentes diretamente em organismos vivos.

O Futuro da Computação por DNA


Como um conceito geral, a computação por DNA tem um potencial enorme para o futuro. A sua capacidade de armazenamento gigantesca, custo baixo de energia, facilidade de manufatura explorando o poder da auto-montagem e a sua fácil afinidade com o mundo natural são uma porta de entrada para a computação em nano-escala, talvez até através de projetos que mesclem componentes eletrônicos e moleculares. Desde a sua criação, a tecnologia tem progredido rapidamente, fornecendo diagnósticos em ponto-de-cuidado e medicamentos inteligentes provas-de-conceito - que são aqueles capazes de tomar decisões diagnósticas quanto ao tipo de tratamento a administrar.

Claro que há muitos desafios a serem vencidos para que a tecnologia possa avançar das provas-de-conceito para drogas inteligentes verdadeiras: a confiabilidade dos andadores de DNA, a robustez da auto-montagem e a melhoria da administração dos medicamentos. Mas há um século de pesquisa na ciência da computação tradicional pronta para ajudar no desenvolvimento da computação por DNA através de novas linguagens de programação, abstrações e técnicas de verificação formal - aquelas que já conseguiram revolucionar o desenho dos circuitos de silício e que podem ajudar a impelir a computação orgânica no mesmo caminho.

Fonte: IFLScience

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Isso Aí, Ciência P*rra! - Quarta Científica #21



Em um mundo ideal, nós seríamos capazes de perder peso sem as sessões suadas e extenuantes de exercício físico. Um grupo de pesquisadores que desenvolveu uma molécula que imita os efeitos do exercício sugerem que isso não seja mais tão irreal assim.

No estudo, publicado na revista Chemistry and Biology, os pesquisadores descrevem uma nova molécula - batizada de "composto 14" - que tem o potencial de ajudar no tratamento de pacientes obesos e diabéticos tipo-2. O composto 14, malandramente, é capaz de enganar o corpo e fazê-lo achar que está sem energia.

A molécula faz isso primeiro inibindo a função da ATIC, uma enzima celular que atua no processo metabolico. Essa inibição faz com que outra molécula, a ZMP, se acumule nas células. Esse acúmulo faz a célula pensar que está ficando sem energia. O sensor central de energia da célula, o AMPK, é ativado, o que estimula o aumento do consumo de glicose e da taxa metabólica para compensar a suposta falta de energia. Geralmente, é isso que acontece quando fazemos exercício.

Os pesquisadores testaram a molécula em dois grupos de ratos; um deles recebeu uma dieta normal, o outro uma de alta caloria, para que ganhassem peso e perdessem tolerância a glicose, que é um dos primeiros sintomas de diabetes.

"Estudos anteriores mostram evidências de que se fosse possível ativar seletivamente o AMPK com uma molécula pequena, haveria potencial para o tratamento de várias doenças, inclusive diabetes tipo 2, já que a molécula agiria como um mimético de exercícios físicos e aumentaria o uso de glicose e oxigênio nas células," disse Ali Tavassoli, professor de bioquímica da Universidade de Southampton.

Os pesquisadores se animaram com os resultados, já que o composto 14 se mostrou capaz de "aumentar a tolerância a glicose e reduzir seu níveis no sangue," notou o estudo. O peso e os níveis de glicose continuaram normais nos ratos com dietas normais que receberam o composto 14. Nos ratos obesos, o composto reduziu a glicose elevada para mais perto dos valores normais.


A equipe administrou a molécula todo dia durante sete dias, e descobriram que os ratos obesos perderam cerca de 5% de seu peso corporal. Enquanto isso, o composto não teve muito efeito no peso dos ratos em dietas normais.

"Essa seletividade pelos ratos obesos provavelmente vem do funcionamento do composto e o caminho celular em que a molécula atua. Posto de maneira simples, as células nos ratos obesos tinham muito mais 'potencial oculto' de terem o metabolismo regulado do que as células dos ratos normais," disse Tavassoli ao I F*cking Love Science.

Apesar de uma "pílula de malhação" ainda não estar em vista, os cientistas acreditam que o composto 14 possa ter um papel importante na luta contra a obesidade e a diabetes tipo 2. Eles mencionam estudos anteriores que mostram que a ativação seletiva do AMPK pode ter vários benefícios terapêuticos em potencial.

Os pesquisadores esperam desenvolver o composto 14 e analizar seus efeitos de longo prazo. Atualmente, nos Estados Unidos, mais de um terço da população adulta (78.6 milhões) é obeso e 29.1 milhões tem diabetes. A diabetes tipo 2 constitui de 90% a 95% de todos os casos diagnosticados.

O que mais dizer, além de...

Créditos: Rapmaster


Fonte: IFLScience

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Iluminatis Pesquisam Implantes de Controle Mental... quer dizer... Possível Revolução no Tratamento de Males Neurológicos - Tecno-Segunda #23


Sendo a central de comando do corpo, é muito importante que o cérebro seja protegido do perigo. Um desses mecanismos de proteção é a barreira hematoencefálica, um filtro extremamente seletivo que age isolando substâncias potencialmente tóxicas e preservando os delicados tecidos e o balanceamento químico do cérebro. Mas, sendo essa barreira tão boa no que faz, torna-se muito difícil administrar terapias caso algo dê errado dentro do crânio.

Por causa disso, os cientistas vêm se dedicando a criar meios de driblar esse problema, e uma equipe parece ter criado uma possibilidade muito interessante: um aparelho minúsculo, da espessura de um fio de cabelo e carregado de medicamentos, que pode ser implantado no cérebro para realizar tratamentos precisos. E já que o sistema foi criado para ser wireless, ele pode ser ativado por controle remoto, aumentando ainda mais a precisão.

"Agora, literalmente, podemos realizar uma terapia farmacológica apertando um botão," disse o co-autor Jordan McCall da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington. "Nós criamos o aparelho para usar tecnologia de infravermelho, quase como um controle remoto de TV."

Para realizar a pesquisa, que foi publicada na revista Cell, os cientistas começaram criando um aparelho extremamente fino com quatro câmaras para transportar os fármacos e bombas microscópicas para administrá-los. Feito de materiais macios e maleáveis, o aparelho foi criado para não danificar o delicado tecido cerebral nem gerar respostas inflamatórias após a implantação mas, ao mesmo tempo, ser durável o bastante para funcionar por um período prolongado.

Para testar a invenção, os pesquisadores a inseriram na região do cérebro de um camundongo responsável pelo controle motor e induziram, remotamente, a liberação de um estimulante neuronal, que fez os animais correrem em círculos.

O próximo passo da investigação foi combiná-la com uma técnica chamada "optogenética". Como o nome sugere, ela combina genética com luz. Ou, mais especificamente, consiste em alterar um grupo de células específicas para que elas produzam uma proteína sensível a luz que pode ser estimulada ou inibida com luz de um certo comprimento de onda.

Aplicando esse processo a células produtoras de dopamina, os pesquisadores foram capazes de usar luz para induzir a liberação desse neurotransmissor do prazer quando os camundongos entravam em áreas específicas de um labirinto. Por causa disso, em testes subsequentes, mesmo sem estímulos, os animais escolhiam voltar aos mesmos lugares, atrás de mais uma dose de recompensa. Mas, quando o dispositivo dos pesquisadores foi usado para administrar um medicamento que impede a ação da dopamina, eles conseguiram, com sucesso, interferir com a fissura luminosa das cobaias.

"No futuro, deve ser possível criar drogas terapêuticas  ativadas por luz," disse o co-investigador principal Micheal Bruchas. "Com um desses pequenos dispositivos implantados, poderíamos administrar um medicamento a uma região específica do cérebro e ativá-lo com luz conforme necessário. Esse método poderia gerar tratamentos muito mais localizados e com menos efeitos colaterais."

O objetivo final dos pesquisadores é influenciar os circuitos neurais ligados à dor, epilepsia ou até mesmo depressão, mas por enquanto, usár sua invenção em cobaias animais pode aumentar nosso conhecimento das ligações entre as funções do cérebro e os padrões de comportamento.

Fonte: IFLScience

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Anunciados Testes Para Sangue Cultivado Artificialmente. Comunidade Vampira Festeja - Quarta Científica #18



Muito embora tenha havido um aumento no número de doações desde a última década, ainda há falta de sangue limpo para salvar vidas. Portanto, se um número maior de doadores não está dando conta, os cientistas precisam de uma nova solução para atender a demanda. Uma das possibilidades em investigação é o uso de substitutos sintéticos de sangue, que poderiam, se desenvolvidos com sucesso, ser doados a qualquer paciente que precisasse, independente do tipo sanguíneo.

Outra solução menos artificial seria cultivar estoques de células vermelhas humanas em laboratório, e um veredito sobre essa possibilidade deve ser declarado em alguns anos, já que o primeiro teste clínico acaba de ser anunciado.

De acordo com o Serviço de Saúde Nacional (NHS) do Reino Unido, o teste vai ocorrer até 2017 e consistirá na transfusão de pequenas quantidades, só algumas colheres, de sangue cultivado em laboratório em um grupo de voluntários, ao mesmo tempo que outro grupo recebe sangue doado, como controle. Esse teste deve dizer aos pesquisadores como as células sobrevivem em recipientes e se elas podem causar reações adversas no corpo. Os cientistas têm fé na eficácia do processo, já que um estúdio realizado alguns anos atrás demonstrou que células assim conseguem se comportar como originais do hospedeiro humano, diz o New Scientist.

Apesar dos detalhes da técnica que os cientistas da NHS pretendem usar não estarem claros ainda, foi reportado que eles pretendem começar com células-tronco extraídas da medula óssea de doadores adultos para depois estimulá-las a virar células vermelhas. Obtendo esse sucesso, o próximo passo seria investigar outro método que partiria do mesmo lugar, as células tronco hematopoiéticas, só que extraídas de cordões umbilicais doados.

Pesquisas anteriores demonstraram que ambas as fontes podem ser usadas para criar hemácias funcionais em laboratório, o problema até então tem sido a escala de produção. No momento, os pesquisadores empreendem um esforço enorme para cultivar algumas colheres de chá de sangue, muito pouco para uma transfusão. Entretanto, como menciona o The Independent, essa quantidade pode ser suficiente para tratar indivídus com certas doenças sanguíneas como a anemia falciforme, que é o objetivo principal da NHS.

"A intenção não é substituir a doação de sangue, e sim criar tratamentos especializados para grupos específicos de pacientes," diz o Dr. Nick Watkins, Diretor Assistente de Pesquisa e Desenvolvimento da Divisão de Sangue e Transplantes da NHS.

Fonte: IFLScience

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tome Duas Tuberculoses E Me Ligue De Manhã - Quarta Científica #16


Infecções são uma faca de dois "legumes" no que diz respeito ao câncer. Por um lado, elas são nossas inimigas. Vários vírus, como o HPV (causador da herpes), são famosos por criar lesões pré-malignas que podem levar à formação de um tumor. Inflamação crônica, que também pode ser causada por vírus e bactérias, também já foram associados ao desenvolvimento de um câncer.

Mas existe uma outra faceta da relação entre infecções e o câncer: elas podem ajudar na regressão de um tumor. Esse potencial de ter os patógenos como aliados nessa luta foi confirmado recentemente, quando os resultados de um teste clínico fase III foram favoráveis em pacientes de melanoma. Nesse estudo, a resposta ao tratamento foi compreensivelmente maior quando os tumores eram injetados com um vírus geneticamente modificado. Só que, apesar de nunca ter ganhado destaque, a ideia de usar vírus como armas anti-câncer não é de hoje, nem de ontem, mas de mais de um século atrás.

Piorando Antes de Melhorar


Em 1891, o cirurgião William B Coley começou a procurar tratamentos anti-câncer alternativos. Muito triste por uma jovem paciente que morrera de câncer, um sarcoma no braço esquerdo, Coley jurou encontrar um tratamento melhor. Ele procurou por registros antigos e descobriu registros de tumores que regrediram em pacientes que sofreram erisipelas, um tipo de infecção da pele causado pela bactéria streptococcus. Entusiasmado com a nova perspectiva, Coley tratou seu primeiro paciente em 1891 injetando culturas da bactéria diretamente no tumor. O paciente então teve febre altíssima e quase morreu, mas quando se recuperou, o tumor tinha desaparecido completamente. Sua saúde continuou boa por mais oito anos até que ele morreu devido a uma recaída.


Depois disso, Coley tentou curar vários de seus pacientes com sarcoma usando essa técnica, apesar do alto risco do tratamento. Mais tarde, para tornar o tratamento mais seguro, ele começou a usar uma mistura de bactérias streptococcus e serratia que eram mortas por calor antes da injeção. Apesar das bactérias não poderem mais se replicar e causar erisipelas, elas ainda geravam uma forte resposta imune e inflamação no local. Hoje sabemos que essas duas reações eram a chave do sucesso da terapia. O método criou o método das toxinas de Coley, que é citado até hoje como o primeiro tratamento bem-sucedido de imunoterapia.

Terapia Bacteriana Anti-Câncer


Câncer de bexiga é um outro exemplo do uso bem-sucedido de microorganismos como tratamento. Cerca de 70% dos pacientes de câncer de bexiga possuem um tumor não muscular e invasivo, o que significa que ele pode ser facilmente acessado de dentro da bexiga. Nestes casos, ele pode ser removido com uma pequena cirurgia, mas infelizmente esse tipo de câncer tem uma taxa de recaída muito alta, que varia de 30-75%, dependendo do tipo.

Em 1976, foi publicado pela primeira vez um artigo sugerindo o uso de uma injeção do Bacilo Calmette-Guerin (BCG) dentro da bexiga para gerar um efeito protetor. esse bacilo é muito usado em vacinações contra tuberculose. A vacina BCG é feita de uma linha bovina da bactéria que foi enfraquecida após um longo processo de cultura in-vitro. Apesar de ela não ser mais capaz de causar tuberculose em animais e humanos sadios, a vacina ainda possui bactérias vivas. Portanto, elas ainda podem ser cultivadas e injetadas.

Foi demonstrado que esse tratamento reduz duas vezes mais a chance do retorno do câncer três anos após o tratamento, quando comparado com a injeção de drogas quimioterápicas na bexiga. Entretanto, novamente, injetar patógenos no corpo tem suas desvantagens, sendo muito provável que o paciente passe por sintomas de gripe e irritação da bexiga.

Vírus ao Resgate


As bactérias não são os únicos microorganismos que podem ser usados contra o câncer. Alguns vírus têm propriedades oncolíticas (eles infectam e matam, específicamente, células cancerosas) e, ainda por cima, podem ser facilmente criados em laboratório, o que facilita a modificação genética.

Os vírus são um tipo de agente infeccioso extremamente evoluído. Quando eles entram em uma célula, injetam sua informação genética nela - ou a atiram para dentro, como o vírus da Herpes. A célula, então, usa aquela informação genética como se fosse dela, criando as proteínas virais correspondentes. Isso leva a célula, sem saber, a criar mais e mais partículas virais, até explodir. Esses novos vírus, então, podem buscar outras células para infectar.


Para a nossa sorte, as células humanas evoluíram a capacidade de "sentir" a entrada de vírus em seu citoplasma e reagir ou bloqueando sua produção de proteínas ou comentendo suicídio. Essa função é regulada com precisão e recebe o nome de "morte celular programada", impedindo que o vírus se espalhe mais.

O mais interessante sobre o câncer é que as células dos tumores, devido a várias mutações genéticas, perderam a habilidade de se proteger de vírus e realizar a morte programada. A sua incapacidade de morrer quando deveriam, na verdade, é a razão de elas serem malignas para começar. Sendo assim, os vírus podem ser um jeito de mirar, especificamente, as células dos tumores, poupando as saudáveis.

No teste clínico mencionado, foi usado o talimogene laherparepvec (T-VEC), uma forma modificada do vírus da herpes simples. O vírus normal é altamente evoluído e capaz de burlas os sensores virais de nossas células. Mas essa versão terapêutica foi enfraquecida geneticamente para ser controlável pelas células sadias e mesmo assim infectar células cancerosas. E sua habilidade de se replicar também não foi afetada, o que significa que mesmo uma pequena dose do vírus é capaz de infectar novos alvos até que todo o tumor seja destruído. Além disso, ele estimula a produção do fator GM-CSF nas células cancerosas, que faz células imunes se concentrarem na área. deste modo, o T-VEC acaba tendo dois efeitos: destruir as células diretamente e atrair células imunes para terminar o serviço.

Comparado com os exemplos anteriores, esse tratamento se mostrou bem mais seguro, sem nenhuma morte ocorrendo em decorrência dele e só alguns pacientes interrompendo a terapia alegando desconforto (4%). Ademais, a eficácia foi sem-precedentes para esse tipo de terapia, com 16,3% dos pacientes mantendo o estado de remissão por pelo menos seis meses, contra 2,1% dos pacientes do grupo de controle. Interessante notar que os benefícios foram ainda maiores em pacientes com melanomas menos graves, bem como nos que receberam o vírus como a primeira linha de tratamento.

Esses dados demonstram o potencial da infecção microbial para melhorar a imunoterapia do câncer e abrir o caminho para a criação de novos tratamentos.

Fonte: IFLScience

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Já é alguma coisa... - Tecno-Segunda #17


Doctor Who usa sua ficcional chave-de-fenda sônica em uma enorme gama de situações, desde abrir fechaduras a hackear computadores, caixas eletrônicos e desarmar bombas. E ela ainda vira parafusos! E as pesquisas indicam que pelo menos um poder desse ícone da ficção científica pode ser baseado em fatos científicos.

Dizer que ondas sonoras têm energia não parece nenhuma loucura - é só pensar nas sensações físicas que um alto falante tocando notas graves em uma boate ou show causa nas pessoas. O som pode ser sentido fisicamente, não só ouvido. E um jeito fantástico de ver isso em ação são os experimentos de levitação acústica: se a distância entre um alto-falante e um refletor for calculada exatamente e eles puderem formar uma onda estacionária, pode-se levitar objetos e mantê-los no ar em regiões de baixa pressão (chamadas de nodos).


Apesar de parecer coisa do Tinhoso à primeira vista, o fenômeno se resume ao fato de que ondas acústicas, como suas irmãs eletromagnéticas, tem momentum, ou seja, são capazes de aplicar uma força, que costuma receber o nome de Força de Radiação Acústica. Se ela for maior que a gravidade, objetos levitam. Altos-falantes geralmente produzem momentum linear, portanto eles podem mover objetos em linhas retas.

Isso é ótimo para se repelir Daleks, mas não serve de nada para girar parafusos. E é aí que entram os vórtices acústicos: ondas sonoras em forma de espiral. Esse padrão faz com que os vórtices tenham momentum rotacional ao invés de linear. Se for possível transferir esse momentum para um objeto, tipo um parafuso, teremos, literalmente, uma chave-de-fenda sônica.

Os primeiros que conseguiram chegar perto de criar uma chave-de-fenda sônica foi uma equipe de pesquisa da Universidade de Dundee. Em 2012, eles criaram um vórtice acústico que funcionava com um transdutor ultrassônico médico feito para destruir tumores. Essa gambiarra foi usada para absorver o momentum giratório das ondas. Impressionante, sem dúvida, mas isso não chega ao ponto de replicar os poderes da companheira do Doutor. Nós fomos além e demonstramos que o mesmo conceito pode ser usado para manipular partículas microscópicas.

Para criarmos as ondas sonoras em espiral, nós usamos vários alto-falantes ultrassônicos em círculo. Esse arranjo, com 10mm de diâmetro, criou vórtices acústicos de apenas 1mm. E por sua vez, os vórtices foram capazes de girar objetos medindo entre 1 e 100 mícrons, a espessura de um fio de cabelo humano. Se o tamanho do objeto fosse bem específico, as ondas até chegavam a formar um minúsculo tornado.


Por exemplo, quando miramos o aparelho em uma mistura de farinha de trigo e água, os grãos de farinha foram atraídos para o centro do vórtice onde ficaram girando em alta velocidade. Em contraste, partículas menores ficaram só girando lentamente em círculos e de forma nenhuma foram atraídas para o núcleo. Tal escala milimétrica significa que podemos afirmar ter criado uma chave-de-fenda sônica para relojoeiros, capaz, talvez, de vencer a menor das chaves físicas existentes.

Apesar de ser ótimo começar a trilhar o caminho de fazer Doctor Who deixar de ser ficção científica, será que esses vórtices acústicos têm uso no mundo real? A resposta é sim, só que não como os Whovians imaginam. Por exemplo, eles poderiam ser usados como centrífugas microscópicas capazes de separar células, ou purificar água. Todas essas possibilidades se tornam possíveis graças aos estudos que mostram que partículas de tamanhos diferentes têm comportamentos próprios quando expostos a vórtices acústicos.

Ainda mais empolgante é o fato desse movimento das partículas ser extremamente sensível às suas propriedades materiais, como densidade e dureza. Isso pode gerar novos métodos de diagnósticos na medicina. Se, por exemplo, células saudáveis puderem ser separadas das doentes (acredita-se que células cancerosas sejam mais moles que o normal), seria possível detectá-las em uma escala muito pequena, o que seria perfeito para os campos da medicina e da investigação forense.

Provavelmente os vórtices acústicos logo irão ser um dos métodos usados para manipular matéria microscópica. Às vezes o fato científico pode ser tão interessante quanto a ficção - agora só falta alguém descobrir como funciona a TARDIS.

Fonte: IFLScience

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Que Conste Nos Autos O Meu Esforço Para Não Fazer Piadas Com Japoneses - Tecno-Segunda #14


Essa invenção vai te deixar de cabeça mole: um braço robótico, criado para revolucionar procedimentos de laparoscopia, que é baseado nos tentáculos de um polvo. [Entenderam? Polvos são moles. Porque não tem ossos. Haha... ha... ha... tá, parei.]

A maioria dos braços robóticos usados em cirurgias consegue usar só sua ponta para manipular órgãos durante o procedimento. Esse octo-cirurgião, por outro lado, dá uma mão a mais na mesa de operação: ele pode manipular instrumentos cirúrgicos e deslizar ao redor dos órgãos como um polvo de verdade.

Ainda é algo muito novo, mas o Dr. Tommaso Ranzani, que chefiou o estudo, diz: "Acreditamos que o nosso robô é o primeiro passo para a criação de um instrumento que seja capaz de realizar todas essas tarefas, e ainda alcançar áreas remotas do corpo e apoiar os órgãos em volta do local da cirurgia, especialmente em tecidos de difícil acesso."

O desenho atual têm dois módulos contendo uma substância surpreendentemente deliciosa: pó de café. Quando se retira o ar do tubo, o pó de café se aglomera e fica rígido. Esse processo, conhecido como "compactação de material granular", controla o movimento do robô e trava o braço em uma posição quando necessário.

O braço pode se dobrar a ângulos de até 225º em quase todas as direções, se esticar 62% além de seu comprimento normal, enturecer e apertar.

O Dr. Ranzani disse na coletiva de imprensa: "O corpo humano é um ambiente muito desafiador e sem estrutura previsível, onde as capacidades de um polvo podem ter várias vantagens em relação aos equipamentos cirúrgicos tradicionais."

"Em geral, polvos não têm estruturas rígidas, portanto podem adaptar a forma do corpo ao ambiente," complementa Ranzani. "Graças à ausência de um esqueleto rígido, seus oito braços altamente flexíveis podem se retorcer, mudar de tamanho ou se dobrar em qualquer direção a partir de qualquer ponto na estrutura."

O mecanismo foi testado não com órgãos reais, mas com balões de água extremamente técnicos. Ainda é cedo para esse robô, mas um dia poderemos vê-lo vencendo uma verdadeira pista de obstáculos orgânica nas mesas de cirurgia.

.

Fonte: IFLScience

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Na Sua Cara, Sherlock! - Quarta Científica #14

Quem estiver pensando em cometer um crime, tenha em mente: as bactérias estão em todo lugar. Um estudo piloto demonstrou que os germes em itens pessoais como celulares e sapatos são um jeito eficiente de saber onde a pessoa esteve, coisa que pode ser muito útil em investigações forenses.

Micro-organismos tais como as bactérias são pequenos, variados e, geralmente, exclusivos a certos ambientes, indivíduos ou organismos maiores. Por conta disso, elas seriam excelentes para investigações criminais. Assim como DNA e impressões digitais, um suspeito pode, sem saber, deixar micróbios na cena do crime ou na vítima, o que pode gerar informações sobre a sua identidade ou origem. Algum dia, essas assinaturas microbiais podem ser tão importantes quanto DNA ou digitais, apesar de que ainda falta muita pesquisa para isso.

A Era das Bactérias


A Biologia chama o atual estado do mundo em que vivemos de “era dos mamíferos”, que veio depois da “era dos dinossauros”, que veio depois da “era das bactérias”. Mas há muito mais espécies de bactéria no mundo do que espécies de mamíferos. Se olharmos esses dados, junto com a distribuição e adaptabilidade delas, aparentemente ainda estamos na era das bactérias.

As bactérias são os seres mais abundantes e geneticamente diversos de que temos conhecimento. Essas pequenas criaturas habitam praticamente todos os ambientes, inclusive lugares com condições extremas, como as geleiras em grandes altitudes, regiões polares e fontes termais extremamente quentes. Fora isso, elas estão presentes em várias regiões dos corpos de animais e humanos, especialmente a pele, a boca e o trato intestinal. Essas partes do corpo são o lar de várias comunidades de bactérias e outros micro-organismos que podem mudar dependendo da saúde e da idade do hospedeiro.

Vários estudos foram feitos para descrever o microbioma humano, que é o nome dado à coleção de bactérias com as quais convivemos, e para verificar que a assinatura microbial pode mesmo ser usada em investigações e ser aceita, no final de um processo jurídico, como um meio de prova.
Ao chegar na cena de um crime, geralmente o suspeito tem que andar no chão. Essa foi a premissa inicial do estudo, que tentou determinar a possibilidade de rastrear o paradeiro de pessoas usando a comunidade microbial de seus sapatos.


A equipe analisou os sapatos de 89 participantes selecionados aleatoriamente entre os visitantes de três conferências científicas diferentes nos Estados Unidos. Foi descoberto que os sapatos podiam ser divididos em três grupos, de acordo com a localização geográfica das conferências. Isso ocorreu porque sapatos que entraram em contato com tipos diferentes de superfície continham assinaturas microbiais diferentes, junto com um “microbioma central” pertencente ao dono dos sapatos. 
Obviamente, isso é muito útil para equipes forenses, que poderiam usar a assinatura microbial para saber de quem são os sapatos e onde eles estiveram antes da amostra ser colhida.

A equipe também demonstrou que um dos objetos mais comuns do nosso dia a dia, o celular, também pode ser usado com esse intuito. De acordo com eles, o padrão de micro-organismos em um celular é único, fora que também existem diferenças entre as partes de trás e da frente do aparelho, já que um costuma ficar em contato com as mãos e o outro, com o rosto, especialmente a boca. Essas observações são corroboradas por estudos anteriores que demonstram como comunidades microbiais são diferentes dependendo de qual  parte do corpo elas vêm, e que a assinatura de cada pessoa é única.

Obstáculos A Vencer


Entretanto, os autores também apontaram as dificuldades presentes em implementar essa pesquisa. O microbioma das solas costuma mudar ao longo do dia, o que poderia dificultar a localização de uma pessoa que andou muito. Pela mesma lógica, o microbioma de uma certa superfície também muda se muitas pessoas andam sobre ele.

Mas o microbioma tem outros usos em potencial na investigação forense, fora localizar suspeitos. Nos últimos anos, muita pesquisa foi dedicada ao estudo das mudanças nos micróbios presentes em corpos em decomposição, batizado de “necrobioma”, como forma de determinar a hora da morte. A razão para esse estudo segue a mesma linha de outro método comum na disciplina forense: entomologia. Insetos que fazem ninho em cadáveres em intervalos específicos são usados nessa área para responder uma das perguntas mais importantes em um caso de homicídio: quando? Isso porque dá para se prever quais insetos colonizarão um cadáver em cada intervalo de tempo após a morte, então estudá-los revela informações sobre o tempo mínimo desde o óbito.

Exposição dos insetos que se estabelecem em cadáveres ao longo do tempo.
Esse pequeno estudo é importante, mas não será uma revolução para os que atuam na área. Ele é simplesmente o “Princípio da Troca de Locard”, um dos pilares da investigação forense, estendido ao nível microbial: “Todo contato deixa um traço”. Ainda há muito trabalho a fazer para determinar o uso prático desse método no futuro. Um bom jeito de começar seria aumentar a escala dos experimentos, com mais voluntários.

Fonte: IFLScience

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Os Anos De CoD Estão Chegando - Quarta Científica #13


Parece coisa de filme: Uma explosão joga um soldado ao chão. Por fora, ele está bem, mas por dentro, está com hemorragia e se esvaindo em sangue. Um médico chega ao local e imediatamente aplica uma injeção de nanopartículas que se dirigem ao sangramento e ajudam o sangue a coagular, salvando a vida do soldado. Essa cena pode deixar de ser ficção logo logo.

Um time da Virginia Tech e da Universidade Case Western Reserve ampliou pesquisas anteriores para criar nanopartículas coagulantes que conseguem levar medicamentos diretamente ao local do ferimento, iniciando o tratamento antes mesmo do paciente sair do campo de batalha ou do local do acidente.

Ferimentos de explosão, seja por causa da onda de choque, de estilhaços ou do impacto com o chão, são a causa de 79% dos ferimentos em combate, causando hemorragias no cérebro, nos pulmões, no fígado e em outros órgãos. De acordo com os pesquisadores, eles começaram essa pesquisa porque "é horrível não haver um tratamento para hemorragia interna."

"O mais legal das nanopartículas é que você pode criá-la com o propósito de ir até seu alvo" disse Pamela VandeVord, pesquisadora da Virginia Tech, ao Student Science. Assim que elas são injetadas, as partículas entram na corrente sanguínea, onde elas vão atrás das plaquetas, as células responsáveis pela coagulação. Quando encontram uma, uma camada química em volta da nanopartícula adere à plaqueta, fundindo as duas.

Pesquisas feitas anteriormente já tinham demonstrado como esse procedimento de juntar plaquetas e nanopartículas aumentava a taxa de sobrevivência a explosões de 60% para incríveis 95%. Essa nova pesquisa, publicada na revista ACS Macro Letters, mostra que o benefício das nanopartículas pode ser ainda maior se elas forem carregadas com esteróides anti-inflamatórios. Após chegar ao local do trauma, as nanopartículas se desfazem naturalmente, liberando o medicamento diretamente no local.

Anteriormente, o grupo constatou que a sobrevivência dependia muito do dano pulmonar, e que, ao reduzir o sangramento nos pulmões, as partículas contribuíam muito para a recuperação. Dessa vez, os resultados foram parecidos: Imediatamente após o ferimento, as nanopartículas ajudaram a restaurar o funcionamento dos pulmões dos ratos feridos, e após uma semana eles ainda estavam se recuperando melhor que os animais que não receberam o tratamento.

Esses resultados impressionantes seriam úteis até mesmo fora das zonas de guerra. Sendo hemorragias internas a causa de morte mais comum entre pessoas na faixa de 5 a 44 anos nos Estados Unidos, os pesquisadores torcem para que as injeções de nanopartículas ajudem pessoas feridas em situações mais cotidianas, como acidentes de trânsito.

Imagem: MemeDroid

Fonte: IFLScience

quarta-feira, 25 de março de 2015

Só Não Coloquem Eles Para Jogar Dark Souls - Quarta Científica #7


Daqui a algumas semanas, eu estarei a caminho do hospital para fazer uma artroplastia de joelho. Vai ser a cirurgia mais pesada que eu já fiz e eu estou me borrando de medo. Me disseram que é normal sentir dores extremas depois e que eu não vou poder ficar na cama de repouso. Para garantir uma boa recuperação, eu vou ter que levantar e exercitar a nova junta várias vezes por dia. Vai doer, ah vai.

Mas talvez não demore muito para que pacientes como eu fujam de seus tormentos simplesmente jogando jogos de realidade virtual. Esse avanço surpreendente já está sendo testado, mas o conceito não é nenhuma novidade.

Como disse o neurocientista David Linden no site NPR, o cérebro tem mais controle sobre a dor do que imaginamos. Ele é capaz de dizer "Ei, que interessante, aumenta o volume desse relatório de dor chegando aí" ou "abaixa o volume aí, para de prestar atenção". No livro de Linden, Touch: The Science of Hand, Heart and Mind [Toque: A Ciência da Mão, do Coração e da Mente, sem tradução para o português], ele fala de como a nossa percepção da dor depende do cérebro e como ele processa a informação que vem do sistema nervoso.


Tenente Sam Brown




Pesquisadores agora estão tentando manipular esse processo através de jogos. Nos Estados Unidos, um grupo de pacientes que sofreram queimaduras severas foram convidados a jogar SnowWorld, um jogo de realidade virtual criado por dois psicólogos cognitivos, Hunter Hoffman e Dave Patterson, para fazer o cérebro ignorar sinais de dor em favor de experiências mais agradáveis. A motivação deles, de acordo com Hoffman, foi o fato de apesar dos opioides (morfina e derivados) poderem controlar dores de queimadura quando o paciente está em repouso, eles não ajudam em quase nada na agonia diária de trocar curativos, limpar feridas e remover grampos.

O melhor jogador de SnowWorld do mundo é o tenente Sam Brown, que, durante sua primeira missão no Afeganistão em 2008, sofreu queimaduras de terceiro grau em 30% de seu corpo. Um explosivo improvisado que tinha sido enterrado na estrada atingiu o veículo em que ele estava e o fez explodir em uma bola de fogo, mergulhando Brown em chamas. Seus ferimentos foram tão graves que ele teve que ser mantido em um coma artificial por semanas. De volta aos EUA, Brown teve que passar por mais de vinte cirurgias dolorosas, mas nenhuma pior que o ritual diário de tratamento de suas feridas. Quando as enfermeiras cuidavam de suas queimaduras e o ajudavam nos exercícios de fisioterapia, ele sofria dores horríveis.

Em 2012, a NBC News fez uma matéria sobre a experiência de Brown e como a dor do tratamento de queimaduras pode ser tão intensa que pode fazer os pacientes relembrarem o trauma original. No caso de Brown, os procedimentos eram tão insuportáveis que, em algumas vezes, seus oficiais comandantes tiveram que lhe dar ordens diretas de fazer o tratamento.

Para Brown, a salvação veio não na forma de novos tipos de medicamentos ou bandagens, mas na de um video game. Ele foi um dos primeiros a participar no estudo piloto de SnowWorld, que foi feito em conjunto com as Forças Armadas dos EUA, para testar se realmente podia ajudar soldados feridos.


Uma Distração Irritante


Na época, o foco de Hoffman na Universidade de Washington era usar a realidade virtual para ajudar pessoas com aracnofobia patológica. Patterson, que trabalhava no Centro de Queimaduras Harborview em Seattle, é especialista nas técnicas psicológicas que podem ajudar vítimas de queimaduras, tais como hipnose.

Já não era novidade que a nossa percepção de dor pode ser manipulada psicologicamente - por exemplo, ficar com medo da dor pode torná-la pior. Pesquisas feitas sobre as experiências dolorosas de soldados também revelaram como as emoções podem afetar a percepção da dor. E já que o seu cérebro consegue interpretar a dor de um jeito diferente dependendo do que você estiver pensando ou sentindo, por que não testar se a sensação de dor não pode ser alterada propositalmente, chamando a atenção do paciente para outro lugar? Se funcionar, o tratamento poderia ser mais uma distração irritante e os traumáticos períodos de dor poderiam ser reduzidos em muito.

Era um tiro no escuro, mas o conhecimento de Hoffman na área da realidade virtual tornou possível desenvolver um jogo que ofereceu esse tipo de distração. Para isso, os pacientes primeiro colocam um visor de RV e fones de ouvido para depois serem transportados para um cânion congelado cheio de bonecos de neve atirando bolas, grupos de pinguins e mamutes peludos, além de outras surpresas. Enquanto voam pelos neve que cai, eles podem responder ao fogo com suas próprias bolas de neve, e geralmente ficam tão absortos que nem percebem quando os cuidados terminam.


Pelo menos os bonecos são bonitinhos. Créditos da imagem: uwuplatt.edu

Em entrevista à NBC, Patterson explicou como, durante procedimentos dolorosos como a limpeza das feridas, o paciente é levado para um mundo tranquilo e gelado, completamente diferente da realidade. Diz ele que funciona "todo o tempo que a pessoa permanecer no mundo virtual."

O estudo piloto de 2011 demonstrou resultados promissores. Em alguns casos, soldados sofrendo de dores maiores disseram que o SnowWorld funcionava melhor que morfina. O próprio Brown já melhorou muito, graças em grande parte ao SnowWorld, de acordo com o próprio.

Projetos parecidos estão acontecendo em outros lugares. No Reino Unido, a equipe do Hospital Rainha Elizabeth de Birmingham e a Universidade de Birmingham têm pesquisado como a tecnologia de jogos pode aliviar a dor e o desconforto de pacientes através de terapia de distração. A terapia consiste em deixar os pacientes "passeando" por um mundo virtual com cenários inspirados na zona rural de Devon. A ideia é combinar paisagens naturais verdadeiras com aditivos de realidade virtual que ajudam os pacientes a tirar sua atenção da dor e, ao mesmo tempo, permitir a realização de atividades físicas - subir uma colina, atravessar uma ponte, sentar na praia - que criam movimentos dentro do jogo.

Assim como com o SnowWorld, os pacientes geralmente são militares feridos. A maioria sofre de queimaduras severas, mas alguns também sofrem de dores fantasmas de membros amputados.


Aplicações Futuras




No futuro, equipamentos de realidade virtual como o Oculus Rift talvez sejam capazes de criar ambientes convincentes para o alívio da dor e outros usos médicos, como, por exemplo, ajudar pessoas com membros amputados a aprender como usar suas próteses ou tratar estresse pós-traumático. Também estão em andamento pesquisas para descobrir se a realidade virtual pode ser usada para reduzir dores de pescoço crônicas.

O psicólogo social Brock Bastian tem interesse nos jeitos que a dor nos afeta, e vê a própria dor como um tipo de experiência virtual:


"[A dor] é um tipo de atalho para a percepção: ela repentinamente nos torna cientes de tudo no ambiente. Ela, de maneira brutal, nos leva a um estado de consciência sensorial do mundo, do mesmo jeito que meditação."


A dor está no topo das paradas de sucesso. Em seu novo filme, Cake - Uma Razão para Viver, Jennifer Aniston vive uma mulher atormentada por fibromialgia, uma doença que causa dores crônicas, depois de sofrer um acidente de carro. No entanto, para ela, o alívio pode vir não de fugir da realidade, mas de abraçá-la.




Para a minha sorte, a dor da artroplastia é para ser grande mas passageira. Mas mesmo assim, eu planejo tirar o pó do meu PS3 e tentar me distrair com algum jogo. Vamos ver no que dá.

Fonte: IFLScience